Posso ter certeza de ver onça no Pantanal?

Onça pintada no Pantanal

Não com a Paziguá!

Existe um misticismo em torno da imagem da onça pintada que faz com que muitos turistas venham ao Pantanal apenas para vê-la. Desejo compreensível, pois realmente é um animal magnífico e majestoso.

No entanto, esse anseio faz surgir uma situação complexa. Como em qualquer livre mercado, aqui opera a 1ª lei da economia: onde existe demanda, existe oferta.

No caso das onças, não é diferente. Pelo fato de existir uma alta demanda em conhecê-las de perto, vários agentes operam no Pantanal oferecendo a promessa de atender esse desejo. Por mais que não haja crime algum nisso, a forma como é feito esse turismo não condiz com os valores da Paziguá. 

Para poder vender ao turista a certeza de que ele irá ver uma onça, o anfitrião precisa manter esses animais dentro de seu alcance. Já parou para pensar como se faz para manter um animal selvagem por perto? 

3. Propaganda onca
Exemplo de propaganda veiculada com apelo à imagem da onça pintada

Para garantir o contato desses animais com os clientes, alguns agentes trabalham o processo de “Habituação”, que é basicamente acostumá-los ao encontro com humanos.

Segundo Tortato et ali (2017), um turista pode chegar
a gastar US$ 450 por dia para observar os grandes felinos.

(…) os proprietários de empreendimentos, por meio de entrevistas, comentaram que a habituação de onças no Pantanal norte começou no início do século [21], com a ceva, que consiste em ofertar alimentos para estes animais até que eles se habituem aos humanos.

(…) Desta forma, o bem estar dos animais é
desejado mas relativizado, sendo que o possível incômodo causado pela intervenção
humana no cotidiano dos bichos não é levado em consideração
, já que representa o
“menor dos males”, uma vez que ser alvo de admiração turística oferece um status de
proteção
.
(Abonizio e Baptistella, 2018)

Dessa forma, a onça torna-se um produto, nada mais que um objeto para entretenimento humano, mas sob a prerrogativa de preservação da espécie. O que é controverso, pois dessa maneira, nenhum hábito ou comportamento natural desse felino é preservado. Quando a onça pintada passa a ser alimentada, por exemplo, gastar energia caçando passa a ser uma tarefa automaticamente descartável. 

Portanto, surgem vários questionamentos que precisam ser feitos:

  • Até que ponto o homem pode institucionalizar sua interferência no curso da natureza?
  • É ético criar oportunidade de lucro em cima do discurso de preservação de espécie?
  • No caso das onças estarem sendo alimentadas, as espécies que deveriam estar sendo predadas por elas, estão sofrendo explosão populacional?
  • Qual o impacto disso no ecossistema?

Realizar um turismo baseado no controle da natureza não se alinha à Paziguá, por duas principais razões:

O turismo voltado a espécies carismáticas pode, muitas vezes, ser considerado insustentável (…) (Krüger, 2005).

(…) se a espécie fosse extinta da área, possivelmente o interesse e a visitação cairiam (…) (Karanth et al., 2012).

Por isso, a resposta ao título deste artigo é “não com a Paziguá!”. Em nossas expedições, jamais garantiremos a certeza de que uma onça será avistada, pois essa sorte depende de quais surpresas a natureza preparou para sua visita. Mas caso essa condição seja sine qua non para sua vinda ao Pantanal, há diversos agentes de turismo que trabalham com essa garantia.

Mas acredite, não há nada mais gratificante que vivenciar a natureza em sua forma mais pura e autêntica, sem teatros e encenações. Até porque, o Pantanal não é a Disney.  

Referências:

Abonizio, J., & BAPTISTELLA, E. T. Entre o desejo de comunhão e o risco à preservação: a relação entre humanos e animais no turismo ecológico no Pantanal Mato-grossense. (https://aps.pt/wp-content/uploads/X_Congresso/Consumo_XAPS-37964.pdf)

Tortato, F. R., Ribas, C., Concone, H. V. B., & Hoogesteijn, R. (2021). Turismo de observação de mamíferos no Pantanal. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi-Ciências Naturais16(3), 351-370. (http://editora.museu-goeldi.br/bn/artigos/cnv16n3_2021/turismo(tortato).pdf)

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